Nestes últimos anos a moda dos cocktails alastrou-se a Portugal. Em Lisboa, David Palethorpe foi um dos responsáveis pela expansão do fenómeno, primeiro no seu Cinco Lounge (ainda a moda não era moda), e depois, nas receitas que desenvolveu para restaurantes como o Bistro 100 Maneiras, Pharmacia, Cantinho do Avillez, etc. Com os cocktails chegou uma série de bebidas: umas novas, outras conhecidas pelos profissionais da área, mas nem tanto pelo comum dos mortais. Por seu lado o mercado de vodkas, gins e afins sofisticou-se, do mesmo modo que um vermute deixou de ser apenas sinónimo de Martini ou Cinzano, para passar a ser também de Noilly Prat ou Punt e Mes.

 Mais ou menos em simultâneo com toda uma panóplia de novos cocktail’s regressaram os clássicos. O Cosmopolitan deixou de ser bebido apenas por fãs de Carrie Bradshaw (da série Sexo e a cidade), ou o Dry Martini por aspirantes a gentleman a la ‘my name is Bond’. Ao mesmo tempo que se banalizaram as caipirinhas e mojitos de má qualidade, o gin tónico subiu de categoria. Muito devido aos ingleses, mas talvez mais ainda devido aos espanhóis, verdadeiros viciados na causa. Graças a uns e a outros (e certamente mais alguém pelo caminho), chegou-se ao ponto de se escolher, não apenas o gin, mas também, a água tónica que se quer para este cocktail, que é provavelmente o mais celebrado e bebido entre gastrónomos.

Sou um adepto de ambos: clássicos e modernos. Porém, a minha preferência – e actualmente um vicio quase diário – vai para um cocktail bem ‘old school’, o Negroni.

A receita é simples, mas é nos detalhes (como quase sempre) que reside a diferença entre um bom Negroni e um Negroni excepcional. Detalhes que vão além do tipo de vermute ‘rosso’ ou do gin que fazem companhia ao Campari (em proporções iguais) e que podem incluir, também, preciosismos como a água com que se faz o gelo ou o tipo (e a época) da laranja  que dá o toque final – e que não é apenas decoração. De inicio fazia-o com o que tinha à mão. Uma garrafa de Bombay Saphire, uma de Campari (abertas sabe-se lá há quanto tempo) e outra de Martini Dry, que de tão velho tinha virado doce e escuro.

Com o tempo e à medida que fui o fui pedindo de bar em bar (no Brasil tem direito mesmo a um movimento nas redes sociais, o #squadranegroni) fui refinando a preparação. Não sou tão nerd ao ponto de mandar vir água pura da Escócia para fazer gelo, mas uso água filtrada. Também despachei o Martini fora de prazo e passei a utilizar Punt e Mes, um vermute doce com um toque mais bitter (amargo) e botânico (devido à variedade de ervas presentes na sua composição). O gin que uso actualmente é o Hendrick’s, o que realça ainda mais o bouquet aromático, mas a razão de ser deste cocktail é o Campari, bebida italiana, vermelha, amarga, herbácea, doce e única (ufa!) de que sou devoto. Para ser perfeito o Negroni precisa, para o meu gosto, de uma laranja mais ácida. Contudo, a doce do Algarve, desta época, tem a vantagem de se comer melhor no final, quando ainda embebida na mistura. O Negroni é um aperitivo e como tal tem a função de abrir o apetite. É verdade, um Negroni abre-me sempre o apetite. Para outro Negroni.

 

Negroni:

1 parte (30 ml) de Campari

1 parte de vermute (Punt e Mes, o eleito; ou outro ‘rosso’, como o Martini)

1 parte de gin

1 rodela de laranja

 

Deitar as bebidas sobre gelo num copo ‘old fashioned’ (mais ou menos como o da foto). Mexer e colocar uma rodela de laranja cortada ao meio.

 

Fonte: http://mesamarcada.blogs.sapo.pt/507645.html

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